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Vida cristã e vida comunitária eclesial
Usualmente entendemos a vida comunitária eclesial como relacionamento mútuo do cotidiano de uma comunidade. A vida eclesial é uma realidade social que está ali, diante de mim.
E dizemos que a nossa comunidade eclesial funciona bem ou mal; que há ou não há diálogo; que há ou não há participação...
Quem diz isso? Eu. Trata-se de um relacionamento entre mim e essa realidade existente diante de mim chamada vida eclesial. E não somente isso. É sempre um modo de ser do meu relacionamento em referência a mim mesmo, pois é a minha identidade que determina a minha convivência com a realidade quotidiana, chamada de vida eclesial.
Isso tudo nos traz uma conseqüência embaraçosa: nós somos eclesiais ou não eclesiais, mais ou menos eclesiais naquela compreensão de vida eclesial que damos a nós mesmos. Mas a compreensão de vida comunitária eclesial que damos a nós mesmos mostra o que somos.
A vida comunitária eclesial nos desafia a viver como irmãos. Para vivermos como irmãos devemos ter o mesmo sangue. O sangue que nos une como irmãos e nos congrega em Igreja. O nascimento que nos dá o mesmo sangue é o nosso Batismo, que, como processo, é o seguimento de Jesus Cristo. Assim, o nosso Batismo e o seguimento de Jesus são o elo que nos congrega numa comunidade eclesial e nos torna fraternos e comunitários, nos torna Igreja.
Com o nosso Batismo e o seguimento de Jesus Cristo acontece o mesmo que com a maturidade humana. Jamais podemos ter em comum a maturidade pessoal como temos, por exemplo, a igreja-templo, porque a maturidade, a busca do seguimento de Jesus é uma experiência, uma evidência que deve ser conquistada pessoalmente, no crescimento lento da história particular de cada um.
No entanto, quanto mais uma pessoa cresce e é madura como pessoa singular, tanto mais é capaz de relacionar-se com os outros, isto é, de ser e viver na comunidade. Assim também, quanto mais crescemos no nosso Batismo e no seguimento de Cristo, tanto mais aumenta em nós a compreensão para aquilo que une e perfaz a comunidade eclesial fraternal.
Quando falamos de fraternidade cristã eclesial, de amor fraterno, usualmente entendemos Deus, eu e o próximo como três objetos do nosso amor, um ao lado do outro, no fundo dizendo que devemos amar a Deus, ao próximo e a si, com a medida do nosso eu.
No entanto, o que Jesus disse e realizou está numa ordenação bem diferente. Quando se diz: “amar a Deus”, esse amor se refere a mim, sou eu que devo amar, mas num engajamento tal que abandona as nossas medidas e busca a medida de Deus de amar, revelada em Jesus Cristo. Amar como Jesus ama é a essência do seu seguimento, a essência da vida cristã eclesial. Isto significa que toda medida, toda compreensão, todo modo de amar a mim mesmo e ao próximo não vem de mim, mas de Deus, na medida em que eu me abro a Ele de todo o coração, de toda alma e de toda a mente. Assim, amar a Deus não está no mesmo nível do amar a mim mesmo e ao próximo, pois ele é o fundamento, a medida do meu amor para comigo e para com o próximo.
Todo e qualquer trabalho para a própria realização, para a promoção, para a libertação do próximo, por mais engajado que seja, sem a busca absoluta do amar a Deus, não é amar ao próximo no sentido do Evangelho. Isto não significa que não seja bom, mas não é a busca temática e radical do grande mandamento do amor fraterno comunitário eclesial.