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Espontaneidade e criatividade
Há um dogma no modo de pensar usual e comum, um dogma com o qual todos de antemão concordamos: o ser humano deve ser espontâneo, isto é, deve viver solto, conforme seu gosto, seu sentir, seu achar, suas emoções, porque tem direito a ser feliz.
É engraçado, porém, que não se perceba o seguinte: quem vive assim, espontaneamente, não realiza nada na vida, não fica feliz, não marca positivamente a vida de ninguém e, quando se vai, vai tarde, esquecido por todos. Por isso, seguir o dogma acima mencionado não é grande sabedoria!
A intuição originária, que havia antigamente por trás da palavra espontâneo, é diferente. Espontâneo vem do latim “spons”, que quer dizer “vontade”, isto é, querer, luta, busca, empenho de realização de uma busca... Portanto, em latim, espontâneo significa o contrário do que usualmente nós entendemos hoje.
Mas por que, afinal, toda essa consideração? Porque estamos empenhados em nossas atividades eclesiais, comunitárias e pastorais. Neste empenho é importante percebermos que ser cristão, ser Igreja, participar da evangelização, da comunidade, da pastoral não é em nada espontâneo no sentido usual, mas é antes determinação, vontade, empenho, luta, para levar adiante algo que é bom, mas que nos faz resistência e exige doação de nós mesmos.
Nós gostamos da causa do Evangelho: ela nos tocou e toca o coração. O Evangelho é a nossa grande e nobre causa. Sabemos, porém, que o gosto mais verdadeiro é “querer gostar”, isto é, doar-se. Quando alguém se empenha, luta, doa a si mesmo, a causa, aos poucos e sempre mais intensamente, começa a se tornar realidade; ela acaba acontecendo. E o reino de Deus anunciado por Jesus torna-se presente entre nós.
Mas, nisso tudo, o querer e o empenho são importantes demais, porque dão a garantia de continuidade, pois as coisas grandes e nobres somente acontecem na insistência, na constância, na paciência, superando dificuldades, resistências, oposições...
Em nossas comunidades, pastorais e movimentos não faltam desafios, urgências, problemas antigos, novas iniciativas. No empenho de nossas atividades tudo isso se apresenta por primeiro, incutindo-nos certo temor. E se somos conduzidos pelo espontâneo usual poderíamos nos deixar tomar pela lamúria, pelo choro, desânimo... Mas, se nos posicionamos como aqueles que buscam, que lutam, que querem ser colaboradores do Deus de Jesus Cristo na sua causa, aí ressurge a coragem, renova-se a vontade boa e eficaz, recria-se a comunhão...
Esse empenho, diferentemente do espontâneo usual, tem um efeito colateral altamente positivo: o de cutucar a criatividade, arte na qual nós, brasileiros, somos “peritos”. Criatividade, no fundo, é grande habilidade de lidar com as situações desafiadoras, fazendo surgir alternativas que, de tão boas, chegam a surpreender até quem as intuiu. E nossas comunidades, pastorais e movimentos precisam de vitalidade criativa.
Ao encararmos nossas atividades pastorais, queremos, como bons profissionais da causa do Evangelho, ter vontade boa, empenho decidido, querer paciente, luta humilde e pacífica, busca iluminada, atuação eficaz. Afinal, queremos ser fiéis ao dom recebido de sermos seguidores de Jesus e testemunhas do Evangelho.