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Um bom começo
Diz o provérbio que “um bom começo é meio caminho andado”. Como seria um “bom começo” de ano para uma pessoa que em sua vida dá destaque especial ao engajamento religioso?
Todo “começo” é importante, pois ele é uma posição definida no contexto de sua vida, e toda “definição” sempre limpa a área de tudo quanto não condiz com ela, supera as ambigüidades e mostra o caminho em escolhas claras e objetivas.
Não vale, porém, qualquer “começo”. Ele tem que ser “bom”. Mas quando um começo é “bom”? É um tanto difícil definir o que é “bom”, pois na definição do que é bom emerge quem somos e aquilo para o qual gastamos a vida. “Bom” afinal é a mesma coisa que “realizador”!
“Bom começo”, portanto, é tomar certa definição de jeito que, acontecendo o viver, este seja realizador, isto é, dê vazão e concretude aos anseios mais profundos da vida, aqueles que você busca de todo coração e para os quais está gastando sua existência.
Há anseios que surgem espontâneos em nós, são “naturais”, e para estes não necessitamos de muito esforço. Há outros que são “éticos”, isto é, anseios que nós exigimos de nós mesmos por experimentá-los como realizadores de nosso viver. Há outros ainda que são “graça”, graça de Deus: anseios que não são nossos, que nos alcançaram graciosamente, não sabemos bem por que, e que nos afeiçoaram tão fortemente de mover decisões fortes de nossa vida.
O começo do ano nos propõe a comemoração da Solenidade da Santa Mãe de Deus. Para quem está engajado na existência religiosa de Igreja isto não é sem significação, antes, este é o “bom começo”.
A Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria, nos recorda a pedra fundamental do cristianismo: que Deus em Jesus Cristo assumiu nossa existência humana. O fato de comemorarmos Maria como “Mãe de Deus” nos lembra que isso foi bem real, numa pessoa bem identificada, com profunda unidade pessoal entre a componente divina e a componente humana. Jesus Cristo torna-se assim o modelo de toda “aventura” humana que se dá a grandeza de buscar a Deus. Em nossa vida de cristãos surge, portanto, uma posição bem definida: sermos seguidores de Jesus Cristo, realizarmos em nossa existência as linhas mestras que sustentaram a existência de Jesus Cristo, seja em nível de compreensão da vida e do mundo, seja em nível de práticas. Maria foi a primeira e mais intensa realização do seguimento de Jesus Cristo.
Esta pedra fundamental de nossa fé traz grandes novidades: ela afirma que há profunda harmonia entre Deus, o homem e o mundo quando estas dimensões são vividas a partir da experiência de Jesus Cristo. E isso chamamos de paz. A paz religiosa é muito mais radical do que a paz “militar”, “social”, “psicológica”, pois estas nos falam de “ausência” de tensões e conflitos, aquela, pelo contrário, nos fala de “comunhão”, de “participação”, de “partilha”, nos fala de desfecho realizador de toda a nossa existência em sua dimensão individual, comunitária e social.
Essa profunda harmonia renova e recria os relacionamentos interpessoais e intergrupais. De dominação, exploração, auto-afirmação individual e grupal em prejuízo do outro, passa-se à fraternidade entre todas as pessoas e grupos, sem a exclusão de ninguém. Não se negam as diferenças religiosas, culturais, raciais, econômicas, nem as tensões e os conflitos, mas essas diferenças, conflitos e tensões são vividos a partir de um novo “toque” que chamamos fraternidade. As pessoas despertam para a percepção de uma pertença maior, de raiz, Deus, que une todos e convoca todos ao convívio. A partir dessa percepção seus relacionamentos se transformam e começam a ser de “sócios”, isto é, companheiros na mesma aventura humana. A maior intensidade do ser “sócios-companheiros” nós a chamamos de “irmandade, fraternidade”.
“Bom começo”, portanto, é novamente se definir para o seguimento de Jesus Cristo e a partir dele buscar fazer surgir paz e fraternidade em nosso viver individual, comunitário e social.