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A Liturgia dentro da Semana Santa
Não sei se posso expressar-me melhor para dizer o que seja a Semana Santa: centro e ápice das celebrações do mistério da salvação. Direi ainda: supremo patamar do Ano Litúrgico. Direi sem titubear que é a perfeita síntese da vida humana, já que a vida tal como a devemos viver é uma contínua ondulação entre mortes e ressurreições. É a semana que evoca os momentos supremos da existência histórica do Filho de Deus e de Maria. A Semana Santa permite ao cristão, a cada ano, voltar a mergulhar em maior profundidade nos acontecimentos da sua fé e deles emergir para novos horizontes. Pede, a cada um de nós, que entre dentro de si para entender melhor por que aconteceu a morte de Cristo e, assim, penetrar, mais e mais, o alcance da sua palavra dirigida a Madalena pecadora: “A quem muito amou, muito será perdoado.”
Semana Santa, tempo forte de graça na vida de nossas comunidades. Inicia-se com o Domingo de Ramos. A liturgia desse dia une, na mesma celebração, dois momentos contrastantes. O de aclamar o Rei da Glória erguendo ramos em saudação - “Bendito o que vem em nome do Senhor” - e o de condenar o Servo Sofredor, levantando os punhos enraivecidos - “Crucifica-o!”. As duas vozes são da mesma multidão; o aclamado e o rejeitado são a mesma pessoa. De volta para nossas casas levamos conosco ramos bentos numa atitude de solidariedade para com o gesto de aclamação dos filhos dos hebreus.
Os três dias seguintes, que precedem o Tríduo Pascal, passamos a pensar no renhido duelo que se trava entre as forças do bem e do mal dentro de nós, no âmago das estruturas da sociedade e no subterrâneo da história. Quem há de vencer a luta? Diz-nos a fé: o que adere a Jesus Cristo, unindo-se à sua paixão, morte e ressurreição, vive de uma certeza em meio aos embates da vida. A certeza da vitória da graça sobre o pecado, do bem sobre o mal, da vida sobre a morte.
O Tríduo Pascal começa na Quinta-feira Santa. A celebração desse dia nos proporciona reviver o imensurável amor de Deus pela pessoa humana. Seja por meio da inesquecível “lição” que seu Filho nos deixa no gesto do lava-pés, seja na “entrega” de sua vida na Cruz perpetuada na Eucaristia. Dois gestos inefáveis legados como testamento, “antes de passar deste mundo para o Pai”. São gestos que nos comovem e nos convencem o quanto é verdadeiro o testemunho do evangelista: “Jesus, tendo amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até fim” (Jo. 13, 1). Amor este que não podia ir mais longe do que foi: “Se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”. Em outras palavras: “Do modo como vos amei, amai-vos uns aos outros”. Amor este que foi até onde podia ir a onipotência divina quando, nos sinais do pão e do vinho, quis tornar presente, na forma de sacramento, seu sacrifício na Cruz: “É o meu Corpo entregue por vós... O meu Sangue por vós derramado”. Em cada Eucaristia que se celebra, o passado torna-se presente - a morte e a ressurreição - e o presente anuncia o futuro: “Vinde, Senhor Jesus!”
Sexta-feira Santa, precisamente às três horas da tarde - quando, segundo os Evangelhos, Jesus suspenso na Cruz “inclinando a cabeça entregou o espírito” - a Igreja reúne os fieis para a Grande Oração a desdobrar-se em quatro momentos de profunda intensidade. O primeiro deles é o da escuta da Paixão narrada pelo evangelista João. Ouvidos atentos, somos conduzidos a seguir os últimos passos de quem sempre caminhou na direção do cumprimento do projeto de amor do Pai. Desde o jardim das oliveiras, onde se deixa livremente aprisionar, até o monte Calvário onde, pendendo da Cruz, braços abertos sobre o mundo, entrega seu espírito nas mãos do Pai, podendo exclamar em alta voz: “Tudo está consumado!” Com outras palavras: “Realizei tudo que o Pai quis de mim”. No evangelho de João, a morte de Cristo na Cruz tem o nome de “glorificação”. O Apóstolo Paulo assim também se expressa: “Jesus Cristo fez-se obediente até a morte e morte de Cruz. Por isso, Deus o exaltou” (Fl 2, 9-10). Palavras que só compreenderemos ao pé do sepulcro vazio, “na madrugada do primeiro dia da semana”.
Integram a celebração desse dia três outros momentos como respostas da escuta da Paixão. São preces de intercessão pela qual a Igreja reza por todos sem esquecer-se de ninguém. E prece de adoração da Cruz “da qual pendeu a salvação do mundo”. O momento da comunhão de tal forma nos identifica com Ele, para que o pequeno, o oprimido e o marginalizado sempre o veja, em nós, do lado deles e assumindo, com Ele, suas lutas.
Sábado Santo, à noite que se estende pela madrugada, acontece o mais esperado durante toda a Quaresma e a mais esplêndida e significativa celebração entre todas as liturgias da Igreja: a Vigília Pascal, a festa da Luz: o Cristo ressuscitado, simbolizado no Círio Pascal. Diante dessa Luz canta-se a exultação do céu, da terra e da mãe Igreja pela vitória da vida sobre a morte. Diante dessa Luz recorda-se a Historia da Salvação e proclama-se a boa-nova da ressurreição: “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24, 6). Diante dessa Luz renovam-se as promessas do Batismo pelo qual se morre e se é sepultado com Cristo e se ressuscita com Ele.
A Luz de Cristo, que passou da morte para a vida, há de iluminar os novos caminhos do mundo afastando todas as sombras que tornam triste a vida humana. Somente através dessa Luz, Cristo ressuscitado, conseguiremos enxergar o que está por trás das derrotas, dos sofrimentos e da morte.
Nada melhor podemos desejar ao irmão na fé, e dele receber, a não ser os votos de Feliz Páscoa no tríplice sentido: de crer na ressurreição de Cristo, de ressuscitar com Ele e de testemunhar, revestido de vida nova, o Ressuscitado