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O Testamento do Senhor
O amor de Deus, na sua expressão humana mais perfeita, chama-se Jesus Cristo. João Evangelista, que se chamava “o discípulo que Jesus amava”, deu esse testemunho do Mestre: “Ele que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. A Quinta-feira Santa nos revela o que significa esse amar “até o fim”.
O verdadeiro amor exige sempre a presença. Foi por isso que Jesus Cristo “havendo chegado a hora de passar deste mundo para o Pai”, exatamente na “noite em que ia ser entregue”, por exigência do amor e como prova do amor, criou os sinais e os meios de perpetuar entre nós, seus discípulos, a sua presença. O que se deixa na hora da morte para os herdeiros tem o nome de testamento. Na Quinta-feira Santa fazemos memória do que Jesus Cristo nos deixou em testamento. Tudo isso aconteceu na festa da páscoa do povo judeu que se comemorava em torno da mesa, numa refeição ritual, para relembrar o dia em que o Senhor passou pelo Egito e libertou seu povo.
Jesus começou o ritual daquela última ceia da páscoa da Antiga Aliança, que logo se tornou a primeira ceia da páscoa da Nova Aliança, com estas palavras: “Desejei ardentemente comer com vocês esta páscoa”. Na verdade, todas as vezes que nos reunimos na missa é a páscoa de Cristo que celebramos. Ela realiza, em todos que dela participam, uma verdadeira libertação. Liberta-nos da escravidão que vem de dentro, cuja raiz profunda é o egoísmo, e liberta-nos da escravidão que vem de fora, o desamor, a injustiça... Tudo aconteceu na sala do Cenáculo e na intimidade dos doze amigos.
Esse encontro de intimidade foi a hora e a vez de abrir-se o coração do Mestre. Tudo o que Ele fez como prova de amor por nós nesta noite em que ia ser entregue explica o significado desse “amou-nos até o fim”. O “fim” de tudo que Jesus fez por nós resume-se em três grandes dons que Ele nos deixou antes de entregar sua vida na morte da cruz, como inestimável testamento e que marcam a sua presença no meio de nós.
O mandamento novo, a lei do amor, como sinal da sua presença no dom de si pelo serviço ao próximo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. A medida do amor do cristão pelo outro há de ser o amor de Cristo, amor sem medida. Deixou de lado as palavras e falou com o exemplo: “Levantou-se da mesa e começou a lavar os pés dos discípulos”. E no fim perguntou: “Vocês compreenderam o que acabei de fazer? Vocês me chamam de Mestre e Senhor e têm razão, de fato, eu o sou. Vocês devem lavar os pés uns dos outros”. Não é fácil aprender essa lição. É muito fácil fazer pelos outros coisas que nos envaidecem. Ele quer que sejamos capazes de fazer pelos outros também o que nos faz sentir nossa pequenez.
O segundo grande dom que Jesus Cristo nos entregou na Quinta-feira Santa: a Eucaristia, sinal sacramental de sua presença entre nós no dom de sua vida na cruz. A entrega do seu Corpo e o derramamento do seu Sangue na cruz continuam presentes nos sinais do pão e do vinho consagrados na missa. A missa é o sacrifício da cruz ao alcance dos homens de todos os tempos, é o momento maior da nossa identificação com Jesus Cristo. A missa é também o sacrifício da cruz em forma de refeição, de comida: “Todas as vezes que comerdes desse pão e beberdes desse cálice anunciareis a morte do Senhor”. Começa-se a morrer no dia em que cada um de nós nasce para essa vida mortal e começa-se a viver para a vida eterna no dia em que se aceita morrer com Cristo. Morrer com Cristo é dar a vida por amor: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Morrer com Cristo é estar disposto a lavar os pés não só de Pedro, o amigo, mas também de Judas, o traidor.
Finalmente, o terceiro grande dom que Jesus Cristo entregou à Igreja na Quinta-feira Santa: a instituição do sacerdócio ministerial, sinal da sua presença no dom da sua missão, para continuar a fazer o que Ele fez: “Fazei isto em minha memória”. O sacerdócio nasce da Eucaristia e a Eucaristia é perpetuada pelo sacerdócio. E continuar a anunciar a boa nova que Ele anunciou: “Ide anunciar a toda criatura o meu evangelho”. O sacerdote é o homem que carrega as mesmas fraquezas de qualquer outra pessoa, mas foi escolhido do meio do povo para uma missão de serviço bem determinado: fazer discípulos para Jesus Cristo e reuni-los em Igreja-comunidade que é o sinal visível da sua presença no mundo.
Quinta-feira Santa é um dia de ação de graças a Deus, distribuidor de todos os dons, por esses três grandes dons deixados por Jesus Cristo à Igreja como sinais da sua presença: o mandamento novo, sinal do dom de si pelo serviço ao próximo; a Eucaristia, sinal do dom da sua vida na cruz; o sacerdócio, sinal do dom de sua missão no mundo. Tudo isso aconteceu “na noite em que ia ser entregue, havendo chegado a hora de passar deste mundo para o Pai”.