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A caminho do Natal
No calendário da Igreja, esse caminho chama-se Advento, aquele longo tempo de preparação e espera para a vinda do Salvador do mundo, conhecido como tempo da promessa. Natal é já o cumprimento da promessa e, assim, a “plenitude do tempo”. A cada ano, nas celebrações litúrgicas, a Igreja procura relembrar e reviver a História da Salvação. Relembrar, enquanto acontecimento do tempo que passa, e reviver, enquanto mistério que não passa.
No Advento começamos, mais uma vez, a percorrer esse caminho. Começar de novo não significa voltar ao quilômetro zero. É no sentido que nos adverte o Apóstolo Paulo: “Hoje, a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Rm.13,11). Começar de novo é reacender a esperança; em outras palavras, é fortalecer a certeza de alcançar o que se procura. A maior esperança que a humanidade acalenta é a paz, como bem expressa Isaías em sua visão profética: há de chegar o tempo em que “os povos transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices; não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate” (Is.2,4). Hoje, com o progresso da tecnologia, temos bombas teleguiadas que custam mais de um milhão de dólares cada uma e, então, suspirando diríamos: há de chegar o tempo em que esse dinheiro, gasto com bombas de terrível efeito destruidor, será usado para construir habitações, escolas e hospitais nos países pobres. Infelizmente a paz entre os homens ainda não passa de uma visão. Mas o Natal permite-nos acreditar que ela é possível.
Sim, ter esperança é acreditar no futuro e em tempos melhores quando os seres humanos se reconhecerão como irmãos e filhos do mesmo Pai. Não há ser humano que não tenha preocupações em relação ao futuro. As muitas formas de loterias que o governo cria, as ciganas lendo as mãos, as cartomantes lendo as cartas de baralho, os adivinhos de toda sorte são sinais desorientadores das preocupações do ser humano com o futuro. Em relação ao futuro, o que podemos esperar de certo e seguro? Talvez não seja mal generalizar o sentido da expressão com que Jesus nos previne ao falar do fim dos tempos: “Só o Pai sabe”. Só vale alguém preocupar-se com o futuro quando é levado a aproveitar o presente numa atitude de vigilância. Estar vigilante, sim, para tornar-se capaz de ler nos acontecimentos o que Deus fala. Quem está arraigado em seus planos não admite que Deus possa mudá-los. Na verdade, Deus não quer que, antes do fim, sintamos qualquer segurança que nos impeça de lutar e estarmos vigilantes. Até porque o Reino de Deus chegará de improviso.
O Advento anuncia as promessas de Deus que sustentam a esperança dos homens. Reaviva em nós a atitude de espera da tríplice vinda do Senhor. No primeiro momento, faz-nos viver o Cristo que veio e está presente nesses dois mil anos de história e na vida pessoal de cada um de nós. Mesmo do ponto de vista de quem não crê, a história seria outra sem Ele. No segundo momento, o Advento nos prepara para o Cristo que vem porque Ele não está presente como seria de desejar. O mundo continua marcado de injustiças e toda espécie de mal que ocultam sua presença. Ele está vindo sempre que alguém lhe abre as portas, conforme ele nos diz no Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato”. Num terceiro momento, ainda, o Advento nos prepara para a vinda de Cristo, no fim dos tempos, “com glória e poder”. Não há que temer essa volta do Salvador que nos ama a ponto de ter entregue sua vida por nós. Devemos temer, sim, o desperdício do tempo que nos é dado de construir em nós o que Deus nos dá possibilidade de sermos.
Para receber o Cristo que vem e comprometer-nos com ele a trabalhar por um mundo de mais fraternidade, precisamos atender o apelo do Apóstolo Paulo: “Já é hora de despertar” (Rm.13,12) e ser capaz de perceber a desumanidade deste mundo onde a carência e o excesso estão por toda parte. Temos carentes por falta do necessário e carentes por excesso do desnecessário. A proposta de Jesus é vida de qualidade: mais vida para os pobres que precisam ter o necessário e mais vida para os ricos que se escravizam com o desnecessário; mais vida para todos que precisam viver como irmãos. A tarefa é estarmos vigilantes contra tudo que nos escraviza.
Viver o Advento é estar a caminho do Natal, único modo de evitar reduzi-lo a uma festa consumista à custa do papai-noel que nada paga mas sabe fazer a todos gastar.