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Deus é Amor
E nós, suas criaturas, somos capazes de praticar esse amor porque somos criados à imagem de Deus. É quase com estas mesmas palavras que o Papa Bento XVI resume, no seu desfecho, sua primeira Carta Encíclica. Ao dirigi-la a toda a Igreja, deixa falar livremente seu coração de supremo Pastor. Inspirado no evangelista João, que se identificava como “discípulo que Jesus amava”, ele também assim se apresenta: “Não se pode falar de amor sem testemunhar o que Deus é para nós. O desejo maior do papa, através desta Carta, é de ser visto pela Igreja e no mundo com a imagem do Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas”. Por essa razão, sua primeira mensagem só poderia ser sobre o amor.
No dia de sua eleição para sucessor de João Paulo II, diante da multidão na Praça de São Pedro, apresentou-se como “humilde trabalhador da vinha do Senhor”. Em uma de suas primeiras declarações, afirmou com a clareza que lhe é própria: “Apascentar significa amar e amar quer dizer também estar pronto a sofrer. Amar significa dar às ovelhas o verdadeiro bem... Rezai por mim para que eu aprenda a amar, cada vez mais, o seu rebanho.” Ao anunciar a maneira de exercer seu pastoreio declarou: “O meu verdadeiro programa de governo é não fazer a minha vontade, não perseguir idéias minhas, pondo-me, contudo, com a Igreja inteira à escuta da palavra e da vontade do Senhor e deixar-me guiar por Ele da forma que seja Ele mesmo quem guia a Igreja nesta hora da nossa história.”
A linha de pensamento de Bento XVI, nesta primeira Encíclica, caminha na direção de mostrar que todo o itinerário da fé bíblica de fato está centralizado no amor de Deus. É a história de como Deus ama o seu povo, a História da Salvação. Importante ressaltar: antes de mandar amá-lo, Deus nos amou primeiro. O papa ressalta com insistência: “O ‘mandamento’ do amor só se torna possível porque não é mera exigência: o amor pode ser ‘mandado’ porque antes nos é dado” (n. 14).
O mandamento que o Senhor nos deixou através do Decálogo entregue a Moisés – “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda tua alma e com todas tuas forças” – este mandamento Jesus Cristo quis que fosse inseparavelmente unido ao do amor ao próximo. E o papa observa: “Não é apenas um mandamento mas a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro” (n. 1). Em outras palavras: além de nos amar, Deus nos deu o dom de amá-lo. Foi esse amor que Jesus Cristo ensinou aos discípulos, o amor primeiro: amar ao próximo sem esperar ser amado.
Nesta Encíclica, Bento XVI descreve o espetáculo do Divino Amor encenado em três atos: o do coração, o do mundo nos tempos atuais e o da Igreja em todos os tempos. O cenário do coração apresenta o homem, imagem de Deus, criado para amar e ser amado. “O matrimônio monogâmico, baseado num amor exclusivo e definitivo, torna-se o ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e vice-versa, o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano” (n. 11). Assim reflete o papa: o amor cristão não rejeita o amor “eros”. O que é mal não é o “eros” mas o seu fechamento no egoísmo. Conhecemos o amor apaixonado em relação a Deus que se manifesta na experiência dos santos místicos. É verdade: o amor possesivo que existe em nós pode degenerar em vício mas podemos e devemos purifícá-lo e transformá-lo no amor “ágape”, amor oblativo e de comunhão.
O cenário do mundo nos tempos atuais é o embate e o confronto das civilizações, o choque das gerações, a crescente desigualdade social: os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Sentimos, no entanto, sempre mais fortemente que a humanidade tem necessidade de amor mais do que o ar que respira e que o nosso futuro não poderá ser edificado por muros de separação, mas por pontes de justiça para todos, especialmente para os mais fracos. Não se consegue, contudo, praticar bem a justiça quando falta o amor. O amor é a única força que esvazia a violência e tece os laços que constroem a fraternidade. Só o amor torna-nos capazes de praticar o perdão, sem o qual o relacionamento humano fica seriamente fragilizado. Assim entende Bento XVI: “O amor-caridade será sempre necessário mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para desfazer-se do homem enquanto homem” (n. 28b).
A especial atenção do papa volta-se para o terceiro cenário: a Igreja em todos os tempos. Ela exprime sua missão no tríplice serviço: anunciar o Amor no ministério da Palavra de Deus, celebrar o Amor na Liturgia e testemunhar o Amor seguindo o exemplo do Bom Samaritano. Creio que posso dizer: a novidade da Encíclica está nesta afirmação proposta e explicitada com a clareza que não se encontra em outros documentos do Magistério: “Praticar o amor com as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e os necessitados de qualquer gênero pertence tanto à essência da Igreja como o serviço dos sacramentos e o anúncio do Evangelho” (n. 22). E reforça: “São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um separar-se dos outros” (n. 25a). Acrescenta ainda: “Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável de sua própria essência” (n. 25a). Ele não se refere apenas à caridade a ser praticada pelos fiéis individualmente mas à caridade organizada e praticada pela comunidade. Esse pensamento do papa está a indicar a urgência da pastoral social, não de menos necessidade que as demais em nossas comunidades eclesiais.
Quais os elementos constitutivos que formam a essência da caridade cristã e eclesial? Primeiro, ela é uma resposta à necessidade imediata: nudez, fome, doença... Estamos diante de “seres humanos que necessitam de algo mais que um tratamento tecnicamente correto; têm necessidade de humanidade, precisam da atenção do coração” (n. 60a). Segundo, ela não é um meio de mudar o mundo por exigência de uma ideologia, nem está a serviço de estratégias humanas, mas é atualização, aqui e agora, daquele amor de que o homem sempre tem necessidade” (n. 60b.) Terceiro, ela não há que ser uma caridade proselitista. “Quem realiza a caridade em nome da Igreja, nunca procura impor aos outros a fé de sua Igreja. Sabe que o amor na sua pureza e gratuidade é o melhor testemunho de Deus em quem acreditamos e pelo qual somos impelidos a amar” (n. 60c).
A missão da Igreja, ontem, hoje e sempre, é dar continuidade ao amor de Jesus Cristo pelos homens. Seu programa, lembra Bento XVI, é o do Bom Samaritano. O amor-caridade, medida de Deus amar é possível seguindo a lição que o Senhor e Mestre nos deixou no lava-pés na Última Ceia: “Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14).